“Quando a insônia, qual lívido vampiro,
Como o arcanjo da guarda do Sepulcro,
Vela à noite por nós,
E banha-se em suor o travesseiro
E além geme nas franças do pinheiro
Da brisa a longa voz...
Quando sangrenta a luz no alampadário
Estala, cresce, expira, após ressurge,
Como uma alma a penar;
E canta aos guizos rubros da loucura
A febre _ a meretriz da sepultura _
A rir e a soluçar...
Quando tudo vacila e se evapora,
Muda e se anima, vive e se transforma,
Cambaleia e se esvai...
E da sala na mágica penumbra
Um mundo em trevas rápido se obumbra...
E outro das trevas sai...”*
Muda e se anima, vive e se transforma,
Cambaleia e se esvai...
E da sala na mágica penumbra
Um mundo em trevas rápido se obumbra...
E outro das trevas sai...”*
Acho que já é quase meia noite e eu estou sentado na mesa de jantar iluminado apenas pela vela a minha frente. A noite esta calma, silenciosa, assim como eu, ali, refletindo sobre o que anda acontecendo comigo.
Se alguém me visse me confundiria com uma alma penada. Os cabelos e olhos negros, a pele pálida acentuada pela luz, somada as fundas olheiras é de dar medo em qualquer um. Mas atualmente prefiro não pensar em almas penadas. Não quando quero esquecer minha atual situação...
Brincando com as chamas, me concentro em não imaginar nada fora da realidade, só observar o fogo. Observar minha mão passando por ele, e ele se contraindo para desviar desta. Pela primeira vez queria ter me queimado, mas o fogo fugia da minha mão como se uma força invisível o empurrasse. Será o vento produzido pelo meu movimento?
Cobri a chama com a mão e a fechei. Senti o calor, mas não a dor. Retirei-a para saber se o fogo havia apagado, e veio à surpresa. A chama seguiu em uma enorme labareda do pavio até a mão. O susto foi tamanho que comecei a abaná-la, como que prevendo uma possível queimadura, mas, que não ocorrera.
E então parei, pois a vela apagou junto com a labareda e voou com castiçal e tudo para o outro lado da sala batendo ruidosamente na parede e se estatelando no chão.
Provável demonstração de incrível poder telecinético* e manipulação do fogo ou, simplesmente insanidade.
Era real. Eu não podia ter pego, alienadamente, o castiçal e jogado contra a parede, sem contar que ainda posso sentir o calor da labareda- Refleti enquanto reparava o estrago.
Sabe, minha vida toda desejei ter algum poder a mais. Nunca tive esperanças de obter-lo, era algo como uma utopia, que porem, aparentemente, foi alcançada, sendo que uma parte de mim acredita, aceita e até gosta disto outra nega e acusa-me de louco. Contraditório de mais...
Tentei tirar isso da cabeça, talvez se eu esquecer, fingir que nunca aconteceu, tudo isso não passará de um sonho no futuro, uma visão distorcida da realidade, algo que jamais aconteceu realmente.
Mas, e se continuar? Se esses poderes não desaparecerem como eu espero, se só aumentarem e acabarem atrapalhando minha vida?
Não. Não posso ver desse modo, quero esquecer isso não quero?
Decidi subir, ir até a sala de estar, observar um pouco o mar, esvaecer.
Estava escuro, as ondas quebravam suaves, diferente das duvidas lançadas a mim mesmo.
Um ponto branco me chamou a atenção. A julgar pela distancia era algo considerável mente grande. Um pássaro talvez?
Decidi sondá-lo com o binóculo do meu pai. Peguei-o na estante, o coloquei nos olhos e comecei a perseguir o ponto. Levei algum tempo para focalizar o pássaro. Aparentava algo como um pombo, mas, bem maior e mais rápido, totalmente branco, me lembrava algo, mas não consegui lembrar o que.
Outra coisa me chamou a atenção. Um rastro azul claro permanência atrás do animal, não como um rastro de jato, um rastro mais esfumaçado e vivo, refletindo a fraca luz do luar.
Continuei a acompanhá-lo, e vi que suas asas estavam bem surradas e seus olhos, ou o que pareciam ser seus olhos, eram extremamente cinzas e opacos, como grafite.
Como grafite?!
O pássaro me lembrava um desenho no estilo ilusionista.
O acompanhei até o ponto em que ele sumiu em um clarão de luz azulada e fiquei boquiaberto por alguns segundos me perguntando se já estava sonhando, pois o sono pesava em minhas pálpebras.
Fui para a cama. O sono veio arrebatador e simplesmente dormi. Sem nenhum sonho, nenhuma conturbação. Acho estou me acostumando com isso, ou, simplesmente, parei de ter alucinações estranhas.
-Addam, acorda! Trousse seu café.
Ainda sem abrir os olhos ouso a voz da minha mãe. E ao abri-los realmente lá estava ela com a bandeja do café da manha nas mãos.
Minha mãe, Ana, é parecida comigo, porem não possuí minhas olheiras e seus cabelos eram, mais claros.
Ajeitei-me na cama.
-Aqui- disse ela depositando a bandeja- Tratamento especial só hoje!- completou sorrindo.
-Valeu- respondi já devorando o pão, empurrando dois longos goles de café e sorrindo de boca cheia.
Há! Não me apresentei. Eu sou Addam, Addam Lennim. Eu era um estudante como todos os outros até pouco tempo atrás.
Coisas estranhas vêm acontecendo comigo...
Vejo coisas. Criaturas fantásticas, espíritos, monstros. Tenho previsões do futuro que se concretizam. Mecho, levito, e até explodo as coisas só de olhar para elas e desejar que isto ocorra.
Tudo começou há uma semana. A semana mais estranha da minha vida...
* Poema “Anjos da noite” _ “Fotografias” _ de Castro Alves.

